A Sexta e o Recado
Como era de se esperar, às seis em ponto a moça já estava de pé, já tinha tomado seu café, e já não parava de zanzar: daqui pra lá, de lá pra cá. A cada dois minutos espiava a janela, nem ligava pra panela, nem pra conversa, nem pro tear. toda sexta-feira era a mesma peleja, era o dia que com certeza o carteiro iria por lá. a sua espera iria findar.
Acredito que até o homem, o carteiro desconhecido, sabia o que a moça estava a esperar. Mas nesta sexta-feira, desse mês de março, pra surpresa de todos, do carteiro, da moça, e até do pedreiro do cara que mora ao lado da dona Pilar, nesta sexta-feira nenhuma carta veio a chegar. não veio nada. e nas semanas que se arrastaram não veio nenhum sinal, nenhum postal, nenhum retrato.
'Como sorrir pro mundo?' pensava a moça, que sem as sextas feiras nada tinha sentido. como pode no calendário ter apenas seis dias? com as sextas-feiras vazias, vazio estava aquele lugar. era nas sextas que a saudade ia embora, deixando lugar pra uma alegria tamanha, que vinha num envelope, um todo amarelo mostarda com selos coloridos, que sempre arrancava da moça os melhores sorrisos.
Desde aquele dia, aquele que o cachorro não latiu, que o céu não se abriu, que o jardim não floriu, aquele que o carteiro não sorriu, que a moça está a esperar. esperar.
Esperar cansa a moça. e essas sextas-feiras sem vida, sem partida de saudade, sem leituras de viagens. sem o perfume apurado, sem o beijo mandado. sem remetente, sem adeus borrado. só tem a moça, neste dia branco, no seu eterno pelejar ensaiado, que espera a cada semana algum recado do 'seu' soldado.
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