No mais ligeiro olhar
- já sei! - falou o velho espelho assim que ela pousou em sua frente - foi mais um sonho, daquele que te faz acordar e vir correndo até mim? - a moça abre-lhe um sorriso. - tu és tão meu amigo, que me conheces pelo mais ligeiro olhar, não é mesmo? - o espelho meio que pensativo, olha para ela e começa a falar. - sabe moça, espero ansiosamente todas as vezes que você vem até mim. seja sorrindo, chorando, cantando ou apenas silenciando. quantas vezes já desejei tirar uma foto das suas caretas, mandar você calar a boca, ou te colocar no meu colo? quantas ocasiões disse que aquela sua roupa horrorosa era bonita, só para lhe ver mais feliz naquele seu dia nublado, ou suavizei teu brilho para que você pudesse ter mais cautela no caminho? quantas horas já passei ouvindo as suas lamentações, as suas piadas sem graça ou as suas histórias mirabolantes? quantos dias você veio até mim e me ignorou, e eu permaneci no mesmo lugar esperando você voltar? quantos versos, cantigas e poemas você já declamou para mim, mesmo não sendo para mim? quantos e quantos segredos você já não deixou escapar por trás desses castanhos de olhos? diga-me moça: quantas vezes você chegou aqui e eu estava ausente ou distante de você? nenhum dia! - suspirou. - não sei lhe responder e também não posso mentir, não sei nada disso de ser amigo, quem sabe um dia eu possa ser isso aí para você. hoje, só tenho uma certeza clara aqui comigo, mesmo sem ser esse tal de amigo, sei que nesse mundo inteiro ou além lá no infinito, não haverá ninguém que te conheça mais do que eu, seu velho espelho querido.
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